Mental Health In The Workplace And Teaching Profession: Burnout, Occupational Stress, And Impacts On Quality Of Life
ARTIGO CIENTÍFICO
SAÚDE MENTAL NO AMBIENTE DE TRABALHO E NA DOCÊNCIA: BURNOUT, ESTRESSE OCUPACIONAL E IMPACTOS NA QUALIDADE DE VIDA – Volume 6. Número 4. 2026 – ISSN 2764-4006 | DOI 1055703
Chamada para Submissão de Artigos
A RCI está com submissões abertas em regime de publicação contínua para artigos científicos na área da saúde.
Convidamos pesquisadores, docentes e profissionais da saúde a submeterem artigos multidisciplinares, originais ou de revisão, que contribuam para o avanço científico, a inovação e a formação profissional em saúde, com especial atenção às transformações tecnológicas aplicadas à pesquisa e à educação em saúde.
Todos os manuscritos passam por revisão por pares, recebem DOI e seguem padrões editoriais internacionais.
Veja as normas
SAÚDE MENTAL NO AMBIENTE DE TRABALHO E NA DOCÊNCIA: BURNOUT, ESTRESSE OCUPACIONAL E IMPACTOS NA QUALIDADE DE VIDA
Tânia Mara Pedroso Müller1, Ricardo George Müller2
E-mail correspondente: taniammuller@yahoo.com.br
Data de publicação: 21 de Setembro de 2026
10.55703/27644006060401
Download do Artigo em PDF – Português
RESUMO
A saúde mental no trabalho docente tem sido associada a diferentes fatores psicossociais e organizacionais capazes de comprometer o bem-estar e a qualidade de vida dos profissionais da educação. Este estudo objetivou analisar as evidências científicas sobre burnout e estresse ocupacional na docência, seus fatores associados e suas repercussões sobre saúde mental, qualidade de vida e capacidade laboral. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, com busca em bases científicas reconhecidas, incluindo PubMed/MEDLINE e SciELO, complementada por rastreamento bibliográfico. Foram incluídos estudos envolvendo docentes da educação básica e do ensino superior, submetidos à análise crítica da qualidade metodológica e do risco de viés por instrumentos do Joanna Briggs Institute. Os resultados demonstraram associação recorrente entre sobrecarga de trabalho, pressão temporal, demandas emocionais, conflito de papéis, baixa autonomia e suporte institucional insuficiente com maiores níveis de estresse, exaustão emocional e burnout. Ansiedade, sintomas depressivos, alterações do sono, redução da qualidade de vida, menor capacidade para o trabalho, afastamentos e intenção de abandono da carreira figuraram entre as principais repercussões identificadas. Autoeficácia, autonomia, apoio entre colegas, liderança favorável e suporte organizacional apresentaram associações protetoras, enquanto intervenções estruturadas demonstraram benefícios em diferentes indicadores de saúde mental. Conclui-se que o enfrentamento do sofrimento ocupacional docente requer estratégias integradas que combinem promoção individual da saúde e mudanças sustentáveis na organização e nas condições de trabalho.
Palavras-chave: saúde mental; esgotamento profissional; estresse ocupacional; docentes; qualidade de vida.
ABSTRACT
Mental health in teaching work has been associated with several psychosocial and organizational factors capable of compromising educators’ well-being and quality of life. This study aimed to analyze scientific evidence on burnout and occupational stress among teachers, their associated factors, and their repercussions on mental health, quality of life, and work ability. An integrative literature review was conducted using recognized scientific databases, including PubMed/MEDLINE and SciELO, complemented by bibliographic reference tracking. Studies involving teachers from primary, secondary, and higher education were included and subjected to critical appraisal of methodological quality and risk of bias using Joanna Briggs Institute tools. The findings showed recurrent associations between workload, time pressure, emotional demands, role conflict, low autonomy, and insufficient institutional support with higher levels of stress, emotional exhaustion, and burnout. Anxiety, depressive symptoms, sleep disturbances, poorer quality of life, reduced work ability, sickness absence, and intention to leave the profession were among the main identified outcomes. Self-efficacy, autonomy, peer support, supportive leadership, and organizational support were associated with more favorable outcomes, while structured interventions demonstrated benefits across different mental health indicators. It is concluded that addressing occupational distress among teachers requires integrated strategies combining individual health promotion with sustainable changes in work organization and working conditions.
Keywords: mental health; burnout, professional; occupational stress; teachers; quality of life.
INTRODUÇÃO
A saúde mental no ambiente de trabalho constitui uma dimensão central da saúde ocupacional, especialmente em profissões caracterizadas por elevada demanda cognitiva, intensa interação interpessoal, responsabilidade social e exposição contínua a pressões organizacionais. No contexto educacional, tais fatores assumem particular relevância, uma vez que o exercício da docência envolve simultaneamente planejamento, avaliação, gestão de conflitos, adaptação pedagógica, desempenho institucional, interação com estudantes e famílias, cumprimento de metas e necessidade permanente de atualização profissional. Evidências provenientes de diferentes países demonstram que professores estão expostos a níveis significativos de estresse ocupacional, ansiedade, sintomas depressivos, exaustão emocional e burnout, com repercussões que ultrapassam o bem-estar individual e alcançam a capacidade laboral, a permanência na carreira e a qualidade de vida [1,5,20,21,33,34].
O estresse ocupacional docente resulta da interação entre exigências profissionais e recursos individuais e organizacionais disponíveis para enfrentá-las. Carga excessiva de trabalho, pressão temporal, demandas emocionais, conflitos e ambiguidades de papel, dificuldades de manejo em sala de aula, baixa autonomia, suporte organizacional insuficiente e tensão entre vida profissional e pessoal são fatores repetidamente associados a maior sofrimento psicológico entre professores [4,17-19,23-25]. Em estudo longitudinal com aproximadamente 1.700 docentes em início de carreira, Dicke et al. observaram que demandas relacionadas ao ambiente de sala de aula precederam maior exaustão emocional, enquanto recursos pessoais, particularmente a autoeficácia, apresentaram associação favorável com o engajamento profissional [18]. De forma semelhante, Arvidsson et al., ao acompanharem professores suecos por aproximadamente 30 meses, verificaram que o aumento das demandas de trabalho esteve associado à piora do burnout, enquanto maior latitude decisória se relacionou à redução do risco de esgotamento [19]. Esses achados reforçam a compreensão de que o sofrimento ocupacional na docência não deve ser interpretado exclusivamente como resultado de características individuais, mas como fenômeno produzido pela interação entre o trabalhador, suas condições de trabalho e o ambiente institucional.
Entre as manifestações mais relevantes desse processo encontra-se o burnout, caracterizado por um conjunto de alterações relacionadas ao esgotamento profissional, à deterioração da relação com o trabalho e à redução da percepção de eficácia ou realização profissional. No campo educacional, o fenômeno tem sido observado tanto na educação básica quanto no ensino superior e apresenta associações consistentes com estresse percebido, sobrecarga de trabalho, conflito trabalho-família, pressão por desempenho, dificuldades relacionais e baixa disponibilidade de recursos ocupacionais [3-7,17-19,26-30]. Em docentes universitários portugueses, Teles et al. identificaram associação positiva entre estresse percebido, exaustão emocional e despersonalização, além de relação inversa com a realização pessoal [26]. Entre professores universitários chineses, Zhong et al. demonstraram que burnout se inseria estatisticamente na relação entre estresse ocupacional, sintomas depressivos e pior saúde física [28]. Estudos mais recentes também indicam que a pressão acadêmica e as exigências de produtividade podem intensificar o esgotamento entre docentes do ensino superior [29,30].
A docência universitária apresenta particularidades adicionais. Além das atividades de ensino, muitos profissionais acumulam pesquisa, extensão, orientação discente, gestão acadêmica, produção científica, participação em comissões, captação de recursos e tarefas administrativas. Essa multiplicidade de funções pode ampliar a percepção de sobrecarga e reduzir o tempo disponível para recuperação física e psicológica. Em amostra de 7.408 professores universitários chineses, Pei et al. demonstraram que características do ambiente institucional, engajamento e experiência docente apresentavam relação relevante com o bem-estar profissional [10]. Em outro estudo com mais de 7.500 docentes, níveis mais elevados de estresse se associaram a maior burnout e maior intenção de abandonar o trabalho, enquanto a autoeficácia apresentou efeito moderador sobre parte dessas relações [29]. Esses resultados sugerem que o impacto da saúde mental ocupacional não se restringe ao sofrimento subjetivo, podendo repercutir também sobre a continuidade da carreira, o vínculo institucional e a sustentabilidade do trabalho docente.
No Brasil, evidências recentes demonstram que o problema também apresenta magnitude relevante. Alves et al., ao investigarem professores de uma universidade pública brasileira, identificaram burnout em 36,6% da amostra e observaram associação consistente entre esgotamento e pior qualidade de vida [7]. Sanchez et al. evidenciaram relações entre condições de saúde, sono, atividade física, lazer e qualidade de vida no trabalho entre docentes universitários [8]. Mais recentemente, dados prospectivos da coorte RESPIRA, que acompanha professores de instituições públicas de ensino superior de diferentes regiões do país, demonstraram que demandas quantitativas do trabalho e condições de saúde apresentaram capacidade de predizer pior evolução de determinados domínios da qualidade de vida ao longo de 12 meses [9]. Em outro estudo brasileiro, Barbosa et al. identificaram relações entre burnout, ansiedade, alterações do sono, atividades realizadas fora do horário institucional, tamanho das turmas e domínios da qualidade de vida [31]. Em conjunto, esses achados indicam que a saúde mental docente deve ser analisada de maneira multidimensional, incorporando componentes psicológicos, organizacionais, sociais e físicos.
As repercussões do sofrimento ocupacional podem estender-se além dos sintomas emocionais. Estudos longitudinais demonstram associação entre burnout e redução posterior da capacidade para o trabalho, afastamentos prolongados e deterioração progressiva de indicadores de saúde mental [21,22,32]. Na coorte brasileira conduzida por Salvagioni et al., a presença elevada de despersonalização esteve associada a maior risco de afastamento laboral por período igual ou superior a 30 dias durante dois anos de acompanhamento [22]. Hlado et al., em estudo longitudinal realizado com professores tchecos, observaram que níveis mais elevados de burnout predisseram redução posterior da capacidade percebida para o trabalho [32]. Em uma coorte francesa acompanhada durante dez anos, Wenta et al. verificaram evolução desfavorável dos sintomas depressivos entre professores ao longo do período analisado, evidenciando que as alterações de saúde mental podem assumir caráter persistente e sofrer influência de transformações sociais e ocupacionais de longo prazo [21].
A qualidade de vida representa, nesse cenário, um importante desfecho integrador. Ela expressa não apenas a presença ou ausência de sintomas psicológicos, mas também a percepção do indivíduo sobre sua saúde física, relações sociais, ambiente, funcionalidade e capacidade de conciliar demandas profissionais e pessoais. Estudos realizados em diferentes contextos demonstram que maior estresse ocupacional e burnout se associam a piores indicadores de saúde física e mental, sono, relações sociais e qualidade de vida [2,7-9,28,31]. Yang et al., em ampla amostra de professores, identificaram relações entre estressores ocupacionais, strain psicológico e físico e redução dos componentes de qualidade de vida [2]. No Brasil, Alves et al. demonstraram associação significativa entre burnout e prejuízo em diferentes domínios do WHOQOL-Bref [7], enquanto a coorte RESPIRA acrescentou evidência prospectiva de que demandas laborais podem influenciar negativamente a trajetória da qualidade de vida de docentes universitários [9].
Apesar da relevância dos fatores individuais, a literatura aponta de maneira consistente para a importância dos recursos organizacionais. Suporte da liderança, relações positivas entre colegas, autonomia, reconhecimento, autoeficácia e disponibilidade de estratégias de regulação emocional apresentam associações favoráveis com menor estresse, menor exaustão e maior bem-estar [10,17-19,23,25,27]. Maas et al., por exemplo, encontraram que o suporte oferecido pela liderança escolar se relacionava a menor pressão temporal e menor exaustão emocional [23]. Bottiani et al. observaram que autoeficácia, afiliação entre colegas e outros recursos ocupacionais se associavam a níveis inferiores de estresse e burnout [17]. Esses resultados sustentam uma abordagem que considere simultaneamente intervenções dirigidas ao indivíduo e transformações estruturais no ambiente de trabalho.
Ensaios clínicos e estudos experimentais sugerem ainda que intervenções estruturadas voltadas à redução do estresse e ao desenvolvimento de competências socioemocionais podem produzir benefícios relevantes. Programas baseados em mindfulness, redução de estresse e desenvolvimento de consciência emocional apresentaram efeitos favoráveis sobre estresse percebido, burnout, qualidade do sono, bem-estar, satisfação com a vida e indicadores relacionados à eficácia docente [11-15]. Contudo, a existência de resultados positivos em intervenções individuais não elimina a influência dos determinantes organizacionais. Evidências provenientes de estudos longitudinais e multinível indicam que as condições objetivas do trabalho, a organização institucional, as demandas profissionais e os recursos disponíveis permanecem componentes essenciais para compreensão e prevenção do sofrimento mental entre professores [17-19,23,25].
Embora exista produção científica crescente sobre burnout, estresse ocupacional e saúde mental docente, a literatura permanece marcada por heterogeneidade de instrumentos, populações, contextos educacionais e desenhos de estudo. Parte significativa das pesquisas é transversal, dificultando estabelecer temporalidade e distinguir fatores antecedentes de consequências do sofrimento ocupacional. Paralelamente, estudos longitudinais, coortes e ensaios randomizados vêm ampliando a capacidade de compreender mecanismos, fatores prognósticos e possibilidades de intervenção [9,14,15,18,19,21-25,32]. A integração crítica dessas diferentes formas de evidência é, portanto, necessária para produzir uma compreensão abrangente das relações entre trabalho, burnout, estresse ocupacional, saúde mental e qualidade de vida na docência.
Diante desse cenário, esta revisão integrativa tem como objetivo analisar criticamente as evidências científicas sobre saúde mental no ambiente de trabalho e na docência, com ênfase na ocorrência e nos determinantes do burnout e do estresse ocupacional, bem como em suas repercussões sobre ansiedade, depressão, capacidade laboral, sono, permanência profissional e qualidade de vida. Adicionalmente, busca identificar fatores de risco e proteção, examinar diferenças entre contextos da educação básica e do ensino superior e sintetizar evidências sobre estratégias capazes de prevenir ou reduzir o sofrimento ocupacional entre docentes, contribuindo para uma compreensão integrada do fenômeno e para o desenvolvimento de políticas e práticas institucionais de promoção da saúde mental no trabalho.
METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de caráter analítico e descritivo, desenvolvida com o objetivo de reunir, avaliar criticamente e sintetizar evidências científicas relacionadas à saúde mental no ambiente de trabalho docente, com ênfase em burnout, estresse ocupacional e suas repercussões sobre qualidade de vida, saúde psicológica e capacidade laboral. A condução metodológica seguiu os princípios propostos para revisões integrativas por Whittemore e Knafl [36], contemplando definição do problema, busca da literatura, avaliação crítica, análise e síntese dos achados. Para maior transparência na identificação e seleção das publicações, foram considerados os princípios de relato do PRISMA 2020 [37].
A questão norteadora foi estruturada com base na estratégia PCC, considerando como população professores e docentes da educação básica e do ensino superior; como conceito, saúde mental ocupacional, burnout, estresse relacionado ao trabalho, exaustão emocional, ansiedade, depressão, bem-estar, qualidade de vida, sono e capacidade laboral; e, como contexto, o ambiente de trabalho em instituições educacionais. Dessa forma, buscou-se responder à seguinte questão: quais evidências científicas demonstram a relação entre condições de trabalho docente, burnout e estresse ocupacional e suas repercussões sobre a saúde mental, a capacidade laboral e a qualidade de vida de professores?
A busca bibliográfica foi realizada em bases científicas reconhecidas, com ênfase no PubMed/MEDLINE e SciELO, complementada pelo rastreamento das referências de estudos relevantes e pela verificação dos registros bibliográficos em páginas oficiais dos periódicos, DOI e PubMed. Foram utilizados descritores controlados do Medical Subject Headings (MeSH) e termos livres relacionados a teachers, faculty, burnout, occupational stress, mental health, anxiety, depression, quality of life, well-being, sleep, work ability, absenteeism e turnover intention, combinados pelos operadores booleanos AND e OR.
Foram incluídos estudos originais revisados por pares, com população constituída total ou predominantemente por docentes da educação básica ou superior, que investigassem pelo menos um dos seguintes desfechos: burnout, estresse ocupacional, ansiedade, depressão, saúde mental, bem-estar, qualidade de vida, sono, capacidade para o trabalho ou repercussões ocupacionais. Foram considerados diferentes delineamentos, incluindo estudos transversais, longitudinais, coortes prospectivas, análises multinível e ensaios clínicos randomizados. Excluíram-se editoriais, cartas, artigos de opinião, protocolos sem resultados, estudos sem dados específicos para docentes e publicações sem informações metodológicas suficientes. Revisões sistemáticas e meta-análises foram utilizadas para contextualização e rastreamento de estudos primários, porém não foram contabilizadas como unidades independentes da síntese principal.
Após leitura dos títulos, resumos e textos completos potencialmente elegíveis, foram selecionados 35 estudos primários para compor o corpus da revisão. Nos casos de publicações provenientes de uma mesma população ou projeto de pesquisa, foram consideradas a independência dos dados, o período de acompanhamento e a pertinência dos desfechos, evitando dupla contabilização da mesma evidência.
Os dados foram organizados em matriz de evidências contendo autor e ano, país, delineamento, tamanho amostral, nível de ensino, instrumentos utilizados, principais exposições ocupacionais, desfechos avaliados, resultados relevantes e limitações metodológicas. A qualidade dos estudos e o risco de viés foram avaliados mediante instrumentos do Joanna Briggs Institute (JBI), selecionados conforme o delineamento metodológico [38-40]. A interpretação considerou validade interna, controle de confundidores, adequação dos instrumentos, perdas de seguimento, temporalidade e consistência das análises, sem utilização de escores numéricos arbitrários.
Devido à heterogeneidade entre populações, instrumentos, exposições e desfechos, optou-se por uma síntese narrativa e temática dos resultados. Os achados foram organizados em cinco eixos: estresse ocupacional e demandas psicossociais; burnout e esgotamento profissional; ansiedade, depressão e sofrimento psíquico; impactos sobre qualidade de vida, sono, capacidade laboral e permanência profissional; e fatores protetores e estratégias de prevenção e intervenção. Estudos longitudinais, coortes e ensaios randomizados receberam maior peso interpretativo nas análises envolvendo temporalidade e efeitos de intervenção, enquanto estudos transversais foram utilizados principalmente para caracterização de prevalências e associações.
RESULTADOS
Os estudos selecionados contemplaram diferentes contextos educacionais e geográficos, abrangendo professores da educação básica e do ensino superior em países da América, Europa, Ásia, África e Oceania. Os delineamentos incluíram estudos transversais, investigações longitudinais, coortes prospectivas, análises multinível, ensaios randomizados e pesquisas com medidas repetidas. As amostras apresentaram ampla variação, desde estudos experimentais de pequeno porte até investigações populacionais envolvendo milhares de docentes.
De maneira geral, os resultados convergiram para quatro núcleos principais: estresse ocupacional e burnout; ansiedade, depressão e sofrimento psíquico; repercussões sobre qualidade de vida e capacidade laboral; e fatores protetores e estratégias de intervenção. A Tabela 1 apresenta uma caracterização sintética das evidências segundo esses eixos temáticos, permitindo visualizar os principais fatores investigados e os respectivos desfechos.
Tabela 1 – Caracterização sintética dos principais eixos identificados
| Eixo temático | Principais fatores avaliados | Desfechos predominantes |
| Estresse ocupacional e burnout | Sobrecarga, pressão temporal, demandas emocionais, baixa autonomia, conflitos de papel | Estresse, exaustão emocional, despersonalização e burnout |
| Saúde mental | Estressores laborais, baixo suporte, conflito trabalho-família, ruminação | Ansiedade, depressão, sofrimento psíquico e redução do bem-estar |
| Qualidade de vida e capacidade laboral | Burnout persistente, sono inadequado, elevada demanda quantitativa | Pior qualidade de vida, redução da capacidade laboral, absenteísmo e intenção de saída |
| Fatores protetores e intervenções | Autoeficácia, autonomia, suporte social, liderança, regulação emocional, mindfulness | Menor estresse e burnout, maior bem-estar, engajamento e qualidade do sono |
Estresse ocupacional e burnout
O estresse relacionado ao trabalho constituiu um dos achados mais recorrentes entre os diferentes contextos educacionais. Sobrecarga de tarefas, pressão temporal, demandas emocionais, conflitos e ambiguidades de papel, dificuldades de manejo em sala de aula, baixa autonomia e pressão por desempenho apresentaram associação com maior exaustão emocional e burnout [1-5,17-19,23-30,35].
Entre professores australianos, mais da metade dos participantes relatou níveis muito elevados ou extremos de estresse, sendo a carga laboral e os aspectos relacionados à regulação emocional fatores relevantes [5]. No ensino superior português, maior estresse percebido esteve associado a maiores níveis de exaustão emocional e despersonalização e a menor realização profissional [26]. Entre docentes universitários chineses, a pressão acadêmica também apresentou associação positiva com burnout e relação negativa com satisfação no trabalho [30].
Os estudos longitudinais reforçaram a relação entre condições laborais e evolução do esgotamento. Em professores em início de carreira, demandas relacionadas à sala de aula antecederam maior exaustão emocional, enquanto maior autoeficácia esteve associada a maior engajamento profissional [18]. No acompanhamento realizado na Suécia, o aumento das demandas de trabalho esteve associado a aproximadamente 3,4 vezes maior chance de piora do burnout, enquanto maior latitude decisória apresentou associação inversa, com OR aproximado de 0,51 [19].
A pressão temporal também se mostrou relevante. Em professores suíços acompanhados longitudinalmente, maior suporte da liderança esteve relacionado a menor pressão temporal e menor exaustão emocional [23]. Resultados semelhantes foram observados em estudos que identificaram relações entre apoio dos colegas, percepção positiva da liderança, autoeficácia e menores níveis de burnout [17,25].
No contexto brasileiro, burnout apresentou repercussão importante tanto na educação básica quanto no ensino superior. Entre docentes universitários, Alves et al. identificaram burnout em 36,6% da amostra, com associação significativa com pior qualidade de vida [7]. Outros resultados nacionais indicaram relações entre burnout, alterações do sono, ansiedade, atividades realizadas fora do horário institucional e maior número de estudantes por turma [31].
Ansiedade, depressão e sofrimento psíquico
Sintomas de ansiedade e depressão também apresentaram associação frequente com condições adversas do ambiente de trabalho. Entre professores egípcios, foram observados níveis elevados de estresse ocupacional acompanhados de ansiedade e sintomas depressivos [1]. Em professores japoneses, 20,1% apresentaram sintomas depressivos, associados principalmente à sobrecarga quantitativa, ambiguidade e conflito de papéis e menor suporte social [20].
Entre docentes de escolas públicas da Etiópia, a frequência de sintomas depressivos foi de 44,7%, sendo que o estresse ocupacional grave apresentou forte associação com esse desfecho, com AOR de aproximadamente 4,15 [34]. Da mesma forma, entre professores norte-americanos do ensino médio, estressores contínuos e episódicos estiveram associados a ansiedade e depressão, enquanto maior suporte entre colegas apresentou relação inversa com esses sintomas [33].
Os estudos com acompanhamento temporal indicaram que os prejuízos à saúde mental podem persistir ou se intensificar ao longo do tempo. Na coorte francesa, os sintomas depressivos apresentaram crescimento mais acentuado entre docentes durante o período de acompanhamento quando comparados a profissionais de ocupações semelhantes [21].
Também foram observadas relações entre estresse, burnout e mecanismos psicológicos intermediários. Em docentes universitários chineses, burnout apresentou relação estatística intermediária entre estresse ocupacional, sintomas depressivos e saúde física [28]. Em pesquisa com avaliações repetidas durante 21 dias, maior estresse ocupacional esteve relacionado ao burnout por meio de um percurso envolvendo ruminação e emoções negativas [35].
Qualidade de vida, sono e repercussões ocupacionais
As repercussões do estresse e do burnout ultrapassaram os sintomas psicológicos e alcançaram diferentes dimensões da qualidade de vida. Maior sobrecarga e strain psicológico e físico foram associados a piores indicadores de saúde física e mental entre professores [2]. No ensino superior brasileiro, maior burnout apresentou relação consistente com pior qualidade de vida [7].
Resultados longitudinais brasileiros também demonstraram associação entre características do trabalho e evolução da qualidade de vida. Na coorte RESPIRA, maiores demandas quantitativas estiveram relacionadas a pior evolução do domínio de relações sociais, enquanto maior número de condições de saúde apresentou efeito negativo sobre os componentes físico e psicológico [9].
O sono foi outro componente frequentemente relacionado ao sofrimento ocupacional. Alterações na duração e na qualidade do sono estiveram associadas a dimensões mais desfavoráveis do burnout [31]. Em sentido oposto, intervenções destinadas à redução do estresse apresentaram melhora de duração e qualidade do sono, além de redução de sintomas de insônia em determinados grupos docentes [13,15].
Também foram identificadas repercussões sobre a funcionalidade profissional. Na coorte brasileira de Salvagioni et al., a incidência de afastamento laboral prolongado foi de 9,4%, sendo que professores com elevada despersonalização apresentaram aproximadamente 80% maior risco de afastamento por período igual ou superior a 30 dias após os ajustes realizados [22].
O burnout também apresentou relação prospectiva com diminuição da capacidade percebida para o trabalho [32]. No ensino superior, níveis mais elevados de estresse e burnout estiveram associados a maior intenção de deixar a atividade profissional [29], indicando repercussões potenciais sobre permanência na carreira e sustentabilidade do exercício docente.
Fatores protetores e estratégias de intervenção
Em contraste com os fatores de risco, diferentes recursos individuais e organizacionais apresentaram associações favoráveis com a saúde mental docente. Autoeficácia, autonomia, suporte da liderança, apoio entre colegas, relações profissionais positivas e recursos de regulação emocional foram associados a menores níveis de estresse e burnout e a melhores indicadores de bem-estar [4,10,17-19,23-25,27].
A autoeficácia apresentou relação consistente com maior engajamento e menor vulnerabilidade diante das demandas profissionais [18,29]. Maior autonomia também esteve associada a melhores resultados longitudinais de burnout [19]. Da mesma forma, apoio da liderança e relações positivas entre colegas estiveram relacionados a menor exaustão, ansiedade e sintomas depressivos [17,23,25,33].
Os estudos experimentais indicaram benefícios de intervenções estruturadas voltadas à redução do estresse e ao fortalecimento de competências socioemocionais. Programas baseados em mindfulness e no desenvolvimento de consciência e resiliência apresentaram melhora de estresse percebido, indicadores de burnout, qualidade do sono, satisfação com a vida e bem-estar [11-15].
No ensaio realizado na Dinamarca, a intervenção baseada em mindfulness promoveu redução adicional de aproximadamente 1,7 ponto na Perceived Stress Scale aos três meses e 2,1 pontos aos seis meses, quando comparada ao grupo controle [14]. Entre professores de Hong Kong, observaram-se reduções de estresse, insônia e afeto negativo, acompanhadas de melhora da satisfação com a vida e da percepção geral de saúde [15].
A implementação das intervenções também foi influenciada pelo próprio ambiente institucional. Níveis prévios de estresse, apoio organizacional e suporte da liderança interferiram na adesão e na qualidade da execução dos programas [16].
A Tabela 2 sintetiza os principais fatores de risco, fatores protetores e repercussões identificados nos estudos, permitindo visualizar as relações mais consistentes observadas ao longo da revisão.
Tabela 2 – Síntese dos fatores associados à saúde mental no trabalho docente
| Categoria | Principais achados |
| Fatores de risco ocupacional | Sobrecarga, pressão temporal, demandas emocionais, conflito de papel, baixa autonomia, pressão acadêmica e conflito trabalho-família |
| Fatores organizacionais | Baixo suporte institucional, liderança insuficiente, dificuldades relacionais e ambiente de trabalho desfavorável |
| Fatores protetores | Autoeficácia, autonomia, apoio entre colegas, suporte da liderança, regulação emocional e relações profissionais positivas |
| Desfechos psicológicos | Estresse, burnout, exaustão emocional, ansiedade, depressão, ruminação e redução do bem-estar |
| Desfechos funcionais | Alterações do sono, pior qualidade de vida, menor capacidade para o trabalho, absenteísmo e intenção de saída profissional |
| Intervenções | Mindfulness, CARE e outras estratégias estruturadas de redução do estresse apresentaram resultados favoráveis em diferentes desfechos |
Em conjunto, os resultados evidenciaram uma associação recorrente entre condições psicossociais desfavoráveis de trabalho e maiores níveis de estresse, burnout e sofrimento mental. Sobrecarga, demandas emocionais, baixa autonomia e recursos organizacionais insuficientes apareceram repetidamente relacionados aos piores desfechos, enquanto suporte social, liderança, autonomia e autoeficácia estiveram associados a indicadores mais favoráveis [17-19,23-25].
As repercussões identificadas abrangeram não apenas saúde psicológica, mas também sono, qualidade de vida, capacidade laboral, afastamento profissional e intenção de deixar a carreira [7,9,21,22,29,31,32]. Os resultados provenientes de estudos longitudinais e experimentais reforçaram a existência de relações temporais entre algumas condições de trabalho e a evolução do esgotamento profissional, além de demonstrarem potencial benefício de intervenções direcionadas à redução do estresse [14,15,18,19,21-25].
DISCUSSÃO
Os achados desta revisão evidenciam que a saúde mental no trabalho docente é determinada por uma combinação complexa de fatores individuais, relacionais e organizacionais. A convergência entre estudos realizados em diferentes países e níveis educacionais indica que sobrecarga de trabalho, pressão temporal, demandas emocionais, baixa autonomia, conflitos de papel, dificuldades de relacionamento e suporte institucional insuficiente constituem elementos recorrentes na associação com estresse ocupacional e burnout [3-5,17-19,23-26]. Embora parte expressiva das evidências seja derivada de estudos transversais, investigações longitudinais demonstram que algumas dessas condições antecedem a piora do esgotamento profissional, fortalecendo a plausibilidade temporal das associações observadas [18,19,23-25].
A relação entre demandas ocupacionais e burnout mostrou-se particularmente consistente. O modelo observado em diferentes estudos sugere que demandas elevadas, quando não acompanhadas por recursos adequados, favorecem exaustão emocional e comprometimento do vínculo com o trabalho. Em professores em início de carreira, demandas relacionadas à gestão da sala de aula precederam maior exaustão, enquanto maior autoeficácia esteve associada a melhor engajamento profissional [18]. De forma semelhante, o acompanhamento de docentes suecos mostrou que o aumento das demandas ocupacionais se associou à piora do burnout, enquanto maior latitude decisória apresentou efeito favorável [19]. Esses resultados reforçam que o esgotamento profissional não pode ser compreendido apenas como consequência de características pessoais ou de insuficiente capacidade de enfrentamento, mas como fenômeno relacionado à organização e às condições objetivas do trabalho.
A influência dos recursos organizacionais também foi consistente. Suporte da liderança, relações positivas entre colegas, autonomia e percepção de apoio institucional estiveram associados a menores níveis de estresse e exaustão [17,23,25]. A liderança, em particular, parece exercer papel relevante ao influenciar tanto a percepção de pressão temporal quanto a disponibilidade de apoio diante das demandas cotidianas [23]. Esse achado possui implicações práticas importantes, uma vez que estratégias de promoção da saúde mental no ambiente educacional não devem se limitar ao desenvolvimento de resiliência individual, mas incluir mudanças na organização do trabalho, distribuição de responsabilidades, autonomia profissional, comunicação institucional e disponibilidade de suporte.
Os resultados também demonstraram que burnout se relaciona a um espectro mais amplo de desfechos psicológicos e funcionais. Ansiedade, sintomas depressivos, ruminação, alterações do sono e redução do bem-estar apareceram associados ao estresse ocupacional em diferentes populações docentes [1,20,21,28,33-35]. Entre professores etíopes, níveis elevados de estresse ocupacional apresentaram forte associação com sintomas depressivos [34], enquanto o acompanhamento longitudinal francês demonstrou aumento progressivo de sintomas depressivos entre docentes ao longo do período estudado [21]. Tais achados sugerem que o sofrimento ocupacional pode ultrapassar episódios transitórios de estresse e adquirir caráter persistente quando as demandas são mantidas sem recursos compensatórios suficientes.
A interação entre estresse e burnout parece ainda envolver mecanismos psicológicos intermediários. Estudos baseados em modelagem estrutural identificaram participação de conflito trabalho-família, autoeficácia, satisfação profissional e regulação emocional nessas relações [4,27,29,30]. Em avaliações repetidas ao longo de 21 dias, ruminação e emoções negativas integraram o percurso entre estresse ocupacional e burnout [35]. Embora tais modelos não devam ser interpretados automaticamente como evidência causal, eles ajudam a explicar como demandas profissionais podem permanecer ativas fora do ambiente de trabalho, dificultando recuperação psicológica e ampliando o desgaste acumulado.
As repercussões sobre qualidade de vida constituem outro achado relevante. Professores expostos a maiores níveis de estresse e burnout apresentaram piores indicadores de saúde física, psicológica e social [2,7-9,28,31]. No contexto brasileiro, a associação entre burnout e pior qualidade de vida foi demonstrada entre docentes universitários [7], enquanto dados prospectivos da coorte RESPIRA indicaram que demandas quantitativas e condições de saúde podem influenciar negativamente a evolução de determinados domínios da qualidade de vida [9]. Esses resultados reforçam que a análise da saúde mental docente deve ultrapassar a presença de transtornos específicos e incorporar componentes funcionais, relacionais e de bem-estar global.
Os impactos ocupacionais também foram significativos. Burnout esteve associado a redução posterior da capacidade percebida para o trabalho, maior risco de afastamento prolongado e intenção de deixar a profissão [22,29,32]. Na coorte brasileira, níveis elevados de despersonalização se relacionaram a maior risco de afastamento laboral por período prolongado [22]. Em docentes tchecos, o burnout antecedeu redução da capacidade percebida para o trabalho [32]. Esses achados indicam que o sofrimento psicológico possui repercussões institucionais e econômicas, podendo afetar absenteísmo, retenção profissional, produtividade e continuidade da carreira docente.
Embora educação básica e ensino superior apresentem características distintas, os resultados demonstraram fatores de risco comuns. Na educação básica, dificuldades de manejo em sala de aula, comportamento dos estudantes, pressão temporal e suporte escolar assumiram maior destaque [3,17-19,23,25]. No ensino superior, além da carga docente, aparecem demandas relacionadas à produção acadêmica, pesquisa, gestão, avaliação de desempenho e multiplicidade de funções [7-10,26-31]. A pressão acadêmica mostrou associação com burnout e menor satisfação profissional [30], enquanto estresse e esgotamento também estiveram ligados à intenção de deixar o trabalho [29]. Dessa forma, apesar das especificidades institucionais, ambos os contextos compartilham um núcleo de fatores relacionados a excesso de demandas e insuficiência de recursos.
Os ensaios de intervenção demonstraram que estratégias estruturadas podem produzir efeitos favoráveis sobre estresse, burnout, sono e bem-estar [11-15]. Programas baseados em mindfulness, redução de estresse e desenvolvimento de competências socioemocionais apresentaram resultados positivos em diferentes populações docentes. Entretanto, esses achados devem ser interpretados com cautela. Parte dos ensaios apresenta amostras pequenas, seguimento limitado e impossibilidade de cegamento completo [11-15]. Além disso, intervenções individuais não eliminam os fatores organizacionais que contribuem para o adoecimento. A análise da implementação mostrou que o próprio suporte institucional influencia a adesão e a qualidade dos programas [16]. Dessa forma, intervenções mais consistentes tendem a exigir abordagem integrada, combinando ações individuais com mudanças estruturais.
A presença de fatores protetores recorrentes reforça essa perspectiva. Autoeficácia, autonomia, apoio de colegas, liderança favorável, regulação emocional e relações profissionais positivas estiveram associados a menor vulnerabilidade ao estresse e a melhores indicadores de bem-estar [4,10,17-19,23-25,27]. Entretanto, tais recursos não devem ser utilizados para responsabilizar o professor pela prevenção do burnout. A evidência disponível indica que recursos individuais funcionam dentro de um sistema ocupacional e podem perder efetividade quando demandas organizacionais permanecem excessivas ou persistentemente inadequadas.
Do ponto de vista institucional, os resultados sugerem que políticas de promoção da saúde mental docente devem priorizar a identificação precoce de demandas psicossociais, revisão da distribuição de carga de trabalho, fortalecimento da autonomia, melhoria da comunicação, suporte da liderança, prevenção de conflitos e criação de mecanismos permanentes de acompanhamento da saúde ocupacional. No ensino superior, estratégias adicionais devem considerar pressão por produtividade científica, multiplicidade de funções, atividades realizadas fora do horário formal e equilíbrio entre ensino, pesquisa, extensão e gestão [9,29-31]. Na educação básica, intervenções também devem considerar suporte para manejo de sala de aula, condições estruturais da escola e relações com estudantes e comunidade [3,17-19,25].
Esta revisão apresenta algumas limitações. A heterogeneidade dos instrumentos utilizados para mensurar burnout, estresse, ansiedade, depressão e qualidade de vida dificulta comparações diretas entre estudos. Além disso, uma parcela importante das investigações apresenta delineamento transversal, o que limita inferências de temporalidade e causalidade. Diferenças culturais, organizacionais e educacionais entre países também devem ser consideradas na generalização dos resultados. Por outro lado, a inclusão de estudos longitudinais, coortes, análises multinível, ensaios randomizados e pesquisas com medidas repetidas permitiu ampliar a robustez da síntese e diferenciar associações pontuais de achados sustentados por evidências temporais ou experimentais.
Em síntese, os resultados indicam que burnout e estresse ocupacional na docência constituem fenômenos multidimensionais e estreitamente relacionados às condições psicossociais e organizacionais do trabalho. Sobrecarga, pressão temporal, demandas emocionais, baixa autonomia e suporte insuficiente aparecem de forma consistente associados aos piores desfechos, enquanto recursos como apoio institucional, liderança, autonomia e autoeficácia demonstram efeito favorável. As consequências alcançam saúde mental, qualidade de vida, sono, capacidade laboral e permanência na carreira, reforçando a necessidade de estratégias preventivas que integrem intervenções individuais e mudanças institucionais sustentáveis.
CONCLUSÃO
As evidências analisadas demonstram que a saúde mental no trabalho docente é fortemente influenciada por fatores psicossociais e organizacionais, com destaque para sobrecarga, pressão temporal, demandas emocionais, conflitos de papel, baixa autonomia e suporte institucional insuficiente. Esses elementos estiveram associados de forma recorrente ao estresse ocupacional, à exaustão emocional e ao burnout, tanto na educação básica quanto no ensino superior.
Os impactos observados ultrapassam o sofrimento psicológico imediato e incluem ansiedade, sintomas depressivos, alterações do sono, pior qualidade de vida, redução da capacidade para o trabalho, afastamentos e maior intenção de abandono da carreira. Estudos longitudinais e coortes reforçaram que parte dessas relações apresenta dimensão temporal, indicando que determinadas condições de trabalho podem anteceder o agravamento do esgotamento e de outros desfechos relacionados à saúde.
Em sentido oposto, autonomia, autoeficácia, apoio entre colegas, liderança favorável, suporte organizacional e recursos de regulação emocional mostraram-se associados a melhores indicadores de bem-estar e menor vulnerabilidade ao estresse. Intervenções estruturadas, especialmente aquelas voltadas à redução do estresse e ao desenvolvimento de competências socioemocionais, apresentaram resultados favoráveis em diferentes contextos, embora seus efeitos devam ser compreendidos como complementares, e não substitutivos, às mudanças necessárias na organização do trabalho.
Dessa forma, a prevenção do burnout e do sofrimento mental entre docentes requer uma abordagem integrada, capaz de combinar estratégias individuais de promoção da saúde com políticas institucionais voltadas à adequação das demandas laborais, fortalecimento da autonomia, melhoria das relações profissionais, suporte da liderança e acompanhamento contínuo das condições psicossociais de trabalho.
Conclui-se que burnout e estresse ocupacional representam importantes problemas de saúde no contexto educacional e possuem repercussões relevantes sobre qualidade de vida, funcionalidade e permanência profissional. O enfrentamento desses fenômenos deve ser incorporado às políticas de saúde ocupacional e à gestão das instituições de ensino, com ações preventivas sustentadas por evidências e adaptadas às particularidades da educação básica e do ensino superior.
REFERÊNCIAS
- Desouky D, Allam H. Occupational stress, anxiety and depression among Egyptian teachers. J Epidemiol Glob Health. 2017;7(3):191-8. doi:10.1016/j.jegh.2017.06.002.
- Yang X, Ge C, Hu B, Chi T, Wang L. Relationship between quality of life and occupational stress among teachers. Public Health. 2009;123(11):750-5. doi:10.1016/j.puhe.2009.09.018.
- Shackleton N, Bonell C, Jamal F, Allen E, Mathiot A, Elbourne D, et al. Teacher burnout and contextual and compositional elements of school environment. J Sch Health. 2019;89(12):977-93. doi:10.1111/josh.12839.
- Zhao W, Liao X, Li Q, Jiang W, Ding W. The relationship between teacher job stress and burnout: a moderated mediation model. Front Psychol. 2022;12:784243. doi:10.3389/fpsyg.2021.784243.
- Carroll A, Forrest K, Sanders-O’Connor E, Flynn L, Bower JM, Fynes-Clinton S, et al. Teacher stress and burnout in Australia: examining the role of intrapersonal and environmental factors. Soc Psychol Educ. 2022;25(2-3):441-69. doi:10.1007/s11218-022-09686-7.
- Ribeiro BMSS, Martins JT, Dalri RCMB. Burnout syndrome in primary and secondary school teachers in southern Brazil. Rev Bras Med Trab. 2020;18(3):337-42. doi:10.47626/1679-4435-2020-519.
- Alves PC, Oliveira AF, Paro HBMS. Quality of life and burnout among faculty members: how much does the field of knowledge matter? PLoS One. 2019;14(3):e0214217. doi:10.1371/journal.pone.0214217.
- Sanchez HM, Sanchez EGM, Barbosa MA, Guimarães EC, Porto CC. Impact of health on quality of life and quality of working life of university teachers from different areas of knowledge. Cien Saude Colet. 2019;24(11):4111-23. doi:10.1590/1413-812320182411.28712017.
- Triches MI, Mendes RG, Sato TO. Predictors of quality of life in professors at public higher education institutions from the RESPIRA cohort: Brazilian prospective longitudinal study. Sci Rep. 2025;15(1):43805. doi:10.1038/s41598-025-27794-0.
- Pei S, Chen Z, Zhang X, Guo J. An empirical study on the influencing mechanism of Chinese university teachers’ wellbeing. Front Psychol. 2022;13:970593. doi:10.3389/fpsyg.2022.970593.
- Flook L, Goldberg SB, Pinger L, Bonus K, Davidson RJ. Mindfulness for teachers: a pilot study to assess effects on stress, burnout and teaching efficacy. Mind Brain Educ. 2013;7(3):182-95. doi:10.1111/mbe.12026.
- Jennings PA, Frank JL, Snowberg KE, Coccia MA, Greenberg MT. Improving classroom learning environments by Cultivating Awareness and Resilience in Education (CARE): results of a randomized controlled trial. Sch Psychol Q. 2013;28(4):374-90. doi:10.1037/spq0000035.
- Crain TL, Schonert-Reichl KA, Roeser RW. Cultivating teacher mindfulness: effects of a randomized controlled trial on work, home, and sleep outcomes. J Occup Health Psychol. 2017;22(2):138-52. doi:10.1037/ocp0000043.
- Bonde EH, Fjorback LO, Frydenberg M, Juul L. The effectiveness of mindfulness-based stress reduction for school teachers: a cluster-randomized controlled trial. Eur J Public Health. 2022;32(2):246-53. doi:10.1093/eurpub/ckab223.
- Tsang KKY, Shum KKM, Chan WWL, Li SX, Kwan HW, Su MR, et al. Effectiveness and mechanisms of mindfulness training for school teachers in difficult times: a randomized controlled trial. Mindfulness (N Y). 2021;12(11):2820-31. doi:10.1007/s12671-021-01750-1.
- Braun SS, Greenberg MT, Roeser RW, Taylor LJ, Montero-Marin J, Crane C, et al. Teachers’ stress and training in a school-based mindfulness program: implementation results from a cluster randomized controlled trial. J Sch Psychol. 2024;104:101288. doi:10.1016/j.jsp.2024.101288.
- Bottiani JH, Duran CAK, Pas ET, Bradshaw CP. Teacher stress and burnout in urban middle schools: associations with job demands, resources, and effective classroom practices. J Sch Psychol. 2019;77:36-51. doi:10.1016/j.jsp.2019.10.002.
- Dicke T, Stebner F, Linninger C, Kunter M, Leutner D. A longitudinal study of teachers’ occupational well-being: applying the job demands-resources model. J Occup Health Psychol. 2018;23(2):262-77. doi:10.1037/ocp0000070.
- Arvidsson I, Leo U, Larsson A, Håkansson C, Persson R, Björk J. Burnout among school teachers: quantitative and qualitative results from a follow-up study in southern Sweden. BMC Public Health. 2019;19(1):655. doi:10.1186/s12889-019-6972-1.
- Nakada A, Iwasaki S, Kanchika M, Nakao T, Deguchi Y, Konishi A, et al. Relationship between depressive symptoms and perceived individual level occupational stress among Japanese schoolteachers. Ind Health. 2016;54(5):396-402. doi:10.2486/indhealth.2015-0195.
- Wenta J, Billaudeau N, Temam S, Kab S, Goldberg M, Vuillermoz C, et al. How is the mental health of teachers faring? A 10-year follow-up study of depressive symptoms and job dissatisfaction in the CONSTANCES cohort. Occup Environ Med. 2025;82(9):415-22. doi:10.1136/oemed-2025-110273.
- Salvagioni DAJ, Mesas AE, Melanda FN, González AD, Andrade SM. Burnout and long-term sickness absence from the teaching function: a cohort study. Saf Health Work. 2022;13(2):201-6. doi:10.1016/j.shaw.2022.01.006.
- Maas J, Schoch S, Scholz U, Rackow P, Schüler J, Wegner M, et al. Teachers’ perceived time pressure, emotional exhaustion and the role of social support from the school principal. Soc Psychol Educ. 2021;24(2):441-64. doi:10.1007/s11218-020-09605-8.
- Philipp A, Schüpbach H. Longitudinal effects of emotional labour on emotional exhaustion and dedication of teachers. J Occup Health Psychol. 2010;15(4):494-504. doi:10.1037/a0021046.
- Pas ET, Bradshaw CP, Hershfeldt PA. Teacher- and school-level predictors of teacher efficacy and burnout: identifying potential areas for support. J Sch Psychol. 2012;50(1):129-45. doi:10.1016/j.jsp.2011.07.003.
- Teles R, Valle A, Rodríguez S, Piñeiro I, Regueiro B. Perceived stress and indicators of burnout in teachers at Portuguese higher education institutions (HEI). Int J Environ Res Public Health. 2020;17(9):3248. doi:10.3390/ijerph17093248.
- Puertas-Molero P, Zurita-Ortega F, Chacón-Cuberos R, Martínez-Martínez A, Castro-Sánchez M, González-Valero G. An explanatory model of emotional intelligence and its association with stress, burnout syndrome, and non-verbal communication in the university teachers. J Clin Med. 2018;7(12):524. doi:10.3390/jcm7120524.
- Zhong J, You J, Gan Y, Zhang Y, Lu C, Wang H. Job stress, burnout, depression symptoms, and physical health among Chinese university teachers. Psychol Rep. 2009;105(3 Pt 2):1248-54. doi:10.2466/PR0.105.F.1248-1254.
- Pei S, Wang S, Jiang R, Guo J, Ni J. How work stress influence turnover intention among Chinese local undergraduate university teachers: the mediating effect of job burnout and the moderating effect of self-efficacy. Front Public Health. 2024;12:1308486. doi:10.3389/fpubh.2024.1308486.
- Cao J, Dai T, Dong H, Chen J, Fan Y. Research on the mechanism of academic stress on occupational burnout in Chinese universities. Sci Rep. 2024;14(1):12166. doi:10.1038/s41598-024-62984-2.
- Barbosa IEB, Sampaio AN, Souza CP, Mota BS, Miura CRM, Fonseca CD, et al. Predictor variables effect on the development of Burnout Syndrome in higher education professor. Rev Bras Enferm. 2024;77(4):e20240132. doi:10.1590/0034-7167-2024-0132.
- Hlado P, Lintner T, Juhaňák L, Harvankova K. Bidirectional relationship between burnout and perceived work ability: evidence from a two-wave study among teachers. Appl Psychol Health Well Being. 2025;17(5):e70075. doi:10.1111/aphw.70075.
- Mahan PL, Mahan MP, Park NJ, Shelton C, Brown KC, Weaver MT. Work environment stressors, social support, anxiety, and depression among secondary school teachers. AAOHN J. 2010;58(5):197-205. doi:10.3928/08910162-20100416-01.
- Bete T, Gemechu K, Anbesaw T, Tarafa H, Tadessa J. Depressive symptoms and associated factor among public school teachers in Jimma town, Southwest, Ethiopia 2020: a multi-disciplinary, cross-sectional study. BMC Psychiatry. 2022;22(1):343. doi:10.1186/s12888-022-03941-z.
- Li X, Xu H, Zhang J, Cao X. The relationship between occupational stress and burnout among primary and secondary school physical education teachers: evidence from multiverse-style analysis and diary method. BMC Psychol. 2025;13(1):1003. doi:10.1186/s40359-025-03351-2.