Peptide-Based Therapies In Modern Medicine: Clinical Applications And Challenges In Stability And Bioavailability – A Systematic Review
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Editorial – Da Descoberta Molecular à Prática Clínica: Os Desafios da Medicina Translacional na Era das Terapias Avançadas
O desenvolvimento da medicina contemporânea está profundamente relacionado à capacidade de compreender os mecanismos moleculares das doenças e transformar esse conhecimento em intervenções capazes de modificar a trajetória clínica dos pacientes. Genômica, proteômica, biologia estrutural, bioinformática, inteligência artificial e engenharia de biomateriais ampliaram significativamente as possibilidades de identificação de novos alvos terapêuticos. Entretanto, a descoberta de uma molécula biologicamente promissora constitui apenas o início de um processo científico longo, complexo e sujeito a elevado grau de incerteza.
A medicina translacional ocupa precisamente esse espaço entre a produção do conhecimento básico e sua aplicação efetiva no cuidado em saúde. Sua finalidade não consiste apenas em transportar resultados obtidos em laboratório para os ensaios clínicos, mas em construir um fluxo integrado de evidências que conecte identificação de alvos, caracterização molecular, estudos farmacológicos, avaliação toxicológica, desenvolvimento de formulações, produção industrial, pesquisa clínica, análise regulatória, incorporação tecnológica e acompanhamento pós-comercialização.
Essa trajetória permanece marcada por perdas substanciais. Análises do desenvolvimento internacional de medicamentos indicam que somente cerca de 10% a 20% dos candidatos que iniciam a fase clínica alcançam aprovação para comercialização, com diferenças importantes conforme o alvo, o mecanismo de ação, a modalidade terapêutica e a indicação investigada.[1] Esse cenário demonstra que inovação científica e sucesso terapêutico não são conceitos equivalentes. Uma intervenção pode apresentar atividade molecular consistente e, ainda assim, fracassar por toxicidade, baixa exposição sistêmica, instabilidade, ausência de eficácia clinicamente relevante, dificuldade de fabricação ou inadequação do desenho dos ensaios clínicos.
A revisão sistemática apresentada como artigo de destaque desta edição “Terapias Baseadas em Peptídeos na Medicina Moderna: Aplicações Clínicas e Desafios na Estabilidade e Biodisponibilidade”, do autor Bruno Sander representa de maneira expressiva essa interface entre descoberta molecular e aplicação clínica. Os peptídeos apresentam elevada capacidade de reconhecimento de alvos biológicos e podem atuar como hormônios, ligantes, moduladores enzimáticos, agentes antimicrobianos ou moléculas de direcionamento terapêutico. Entretanto, a atividade farmacológica potencial não elimina barreiras relacionadas à degradação proteolítica, à reduzida permeabilidade por membranas, à curta meia-vida, à variabilidade farmacocinética e às limitações das vias de administração.
A própria Food and Drug Administration reconhece a necessidade de uma avaliação clínica farmacológica específica para medicamentos peptídicos. Em orientação publicada em 2023, ainda em caráter de minuta, a agência destacou aspectos como comprometimento hepático, interações medicamentosas, risco de prolongamento do intervalo QTc, imunogenicidade e seus possíveis efeitos sobre farmacocinética, segurança e eficácia.[2] A preocupação regulatória evidencia que o desenvolvimento dessas terapias não se encerra na demonstração de afinidade por um receptor ou na obtenção de resultados pré-clínicos favoráveis. É necessário compreender como a molécula se comporta no organismo humano e como fatores individuais podem alterar sua resposta clínica.
A experiência com a semaglutida ilustra como desafios relacionados às moléculas peptídicas podem ser enfrentados por meio de modificações estruturais, formulações farmacêuticas e programas clínicos progressivos. No estudo PIONEER 6, a formulação oral da semaglutida demonstrou não inferioridade cardiovascular em comparação ao placebo em pessoas com diabetes mellitus tipo 2 e elevado risco cardiovascular.[3] Posteriormente, o estudo SELECT avaliou 17.604 participantes com doença cardiovascular preexistente, sobrepeso ou obesidade e ausência de diabetes, demonstrando redução relativa de aproximadamente 20% no desfecho composto de morte cardiovascular, infarto do miocárdio não fatal ou acidente vascular cerebral não fatal com a semaglutida subcutânea.[4] Esses resultados mostram que uma plataforma inicialmente desenvolvida para controle glicêmico pode, mediante investigação clínica rigorosa, adquirir relevância em outros desfechos e populações.
Esse processo, contudo, não deve ser compreendido como uma sequência linear e previsível. A medicina translacional exige retorno contínuo entre laboratório e clínica. Resultados negativos podem revelar inadequações do alvo, limitações dos modelos experimentais, subgrupos com respostas diferentes ou biomarcadores ainda não reconhecidos. Da mesma forma, observações clínicas podem originar novas hipóteses mecanísticas e redirecionar programas de desenvolvimento. A tradução científica bem-sucedida depende, portanto, de um sistema capaz de aprender com evidências favoráveis e desfavoráveis, evitando que a pressão por resultados acelere decisões sem sustentação suficiente.
Na chamada era das terapias avançadas, essa integração torna-se ainda mais necessária. O termo pode ser utilizado, em sentido científico amplo, para descrever plataformas moleculares, peptídicas, oligonucleotídicas, celulares e gênicas. Entretanto, é importante reconhecer que, no campo regulatório europeu, a expressão advanced therapy medicinal products possui definição específica e abrange medicamentos de terapia gênica, terapia celular somática e engenharia de tecidos. A diretriz da European Medicines Agency, vigente desde julho de 2025, estabelece requisitos integrados de qualidade, evidências não clínicas e desenvolvimento clínico para esses produtos, incluindo estudos exploratórios, primeiros estudos em seres humanos e ensaios confirmatórios.[5]
O desenvolvimento da edição genética por CRISPR-Cas9 oferece outro exemplo da passagem entre descoberta mecanística, experimentação clínica e autorização regulatória. Resultados clínicos iniciais publicados em 2021 demonstraram que células-tronco e progenitoras hematopoiéticas editadas no intensificador eritroide do gene BCL11A poderiam aumentar a produção de hemoglobina fetal. Nos primeiros pacientes tratados, foram observadas independência transfusional na beta-talassemia dependente de transfusão e ausência de crises vaso-oclusivas no caso de doença falciforme durante o período relatado.[6] Em dezembro de 2023, a FDA aprovou a primeira terapia baseada em CRISPR-Cas9 para doença falciforme, convertendo um princípio de edição genômica em uma intervenção terapêutica autorizada.[7]
Esse avanço também demonstra que a aprovação não representa o término da tradução científica. Produtos celulares e gênicos podem exigir seguimento prolongado, infraestrutura altamente especializada, condicionamento prévio, controle rigoroso do processo produtivo e monitoramento de efeitos tardios. No caso das terapias aprovadas para doença falciforme, a FDA determinou acompanhamento de longo prazo para avaliação da segurança e da efetividade, ressaltando que a introdução de uma tecnologia inovadora gera novas responsabilidades científicas e assistenciais.
A qualidade de fabricação constitui outro elemento decisivo. Para pequenas moléculas, peptídeos, proteínas, vetores virais ou produtos celulares, alterações no processo produtivo podem modificar pureza, potência, estabilidade, perfil de impurezas e resposta imunológica. Desse modo, a caracterização do produto e a consistência entre lotes não são questões apenas industriais: são componentes da própria evidência clínica. Sem fabricação reprodutível e controle analítico adequado, não é possível assegurar que o produto utilizado nos estudos seja equivalente ao que chegará aos pacientes.
No Brasil, a consolidação da pesquisa translacional também depende de um ambiente regulatório capaz de proteger os participantes e, simultaneamente, favorecer o desenvolvimento científico. A Lei nº 14.874/2024 estabeleceu o marco legal da pesquisa com seres humanos e instituiu o Sistema Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos. No campo sanitário, a RDC nº 945/2024 passou a disciplinar as diretrizes e os procedimentos aplicáveis aos ensaios clínicos destinados a subsidiar o registro de medicamentos, acompanhada de normas sobre boas práticas clínicas, fabricação de medicamentos experimentais e análise regulatória baseada em risco.[8] Esse conjunto normativo pode contribuir para maior previsibilidade, desde que sua implementação preserve rigor ético, transparência, qualidade metodológica e independência científica.
Entretanto, a eficiência da tradução científica não pode ser avaliada somente pelo número de moléculas aprovadas. Uma inovação que permanece inacessível à maioria dos pacientes completa apenas parcialmente sua trajetória. Terapias celulares, gênicas e outros medicamentos de alta complexidade podem apresentar custos elevados, incertezas sobre benefícios de longo prazo e grandes exigências estruturais para os sistemas de saúde. A Organização Mundial da Saúde tem ressaltado que essas tecnologias desafiam modelos tradicionais de financiamento, avaliação, precificação e incorporação, tornando indispensável a construção de mecanismos baseados em evidências, transparência, sustentabilidade e equidade.[9]
A medicina translacional deve, portanto, incluir desde o início perguntas que ultrapassem a eficácia molecular: quem poderá receber a intervenção? Em quais centros ela será oferecida? Quais profissionais precisarão ser capacitados? Como serão monitorados os resultados em condições reais? Qual será o impacto orçamentário? Como evitar que a inovação amplie desigualdades já existentes? Essas questões não diminuem o valor da descoberta científica; ao contrário, permitem que ela seja incorporada de forma responsável.
Também é necessário fortalecer a participação de populações historicamente sub-representadas na pesquisa clínica. Variações genéticas, ambientais, socioeconômicas e assistenciais podem influenciar farmacocinética, eficácia, segurança e adesão ao tratamento. A produção de evidências concentrada em poucos países ou grupos populacionais limita a validade externa dos resultados e pode dificultar a aplicação das terapias em contextos distintos. A tradução científica precisa ser global em sua ambição, mas sensível às características epidemiológicas, sociais e estruturais de cada território.
A era das terapias avançadas não será definida apenas pela sofisticação das tecnologias desenvolvidas, mas pela qualidade das evidências que sustentam sua utilização. A rapidez da inovação precisa ser acompanhada por prudência metodológica, vigilância regulatória, responsabilidade ética e capacidade de revisão contínua das práticas clínicas. A adoção prematura de intervenções baseada em plausibilidade biológica, pressão comercial ou divulgação pública desproporcional às evidências pode expor pacientes a riscos e comprometer a confiança social na ciência.
Nesse contexto, o artigo de destaque desta edição reforça uma mensagem central: o potencial terapêutico de uma molécula somente se concretiza quando suas propriedades farmacológicas, limitações biofarmacêuticas, segurança, eficácia e viabilidade clínica são avaliadas de maneira integrada. Os desafios de estabilidade e biodisponibilidade encontrados nas terapias peptídicas não representam obstáculos periféricos, mas componentes fundamentais de sua tradução para a prática médica.
A ciência contemporânea já possui instrumentos capazes de intervir em receptores específicos, modular vias metabólicas, silenciar genes, editar sequências genômicas e reprogramar células. O desafio seguinte é assegurar que essas possibilidades sejam convertidas em tratamentos reprodutíveis, seguros, clinicamente relevantes e socialmente acessíveis. Entre a descoberta molecular e o cuidado existe uma cadeia de decisões científicas, regulatórias, éticas e políticas. Fortalecer essa cadeia será uma das principais responsabilidades da medicina translacional nas próximas décadas.
Ao dedicar esta edição à reflexão sobre terapias peptídicas e inovação clínica, a RCI – Revista Científica IPEDSS reafirma seu compromisso com uma ciência que não se limite ao entusiasmo pela novidade, mas que examine criticamente os caminhos necessários para que a inovação alcance sua finalidade maior: produzir benefícios concretos, mensuráveis e equitativos para a saúde humana.
Referências
- Yamaguchi S, Kaneko M, Narukawa M. Approval success rates of drug candidates based on target, action, modality, application, and their combinations. Clin Transl Sci. 2021;14(3):1113-1122. doi: 10.1111/cts.12980.
- United States Food and Drug Administration. Clinical pharmacology considerations for peptide drug products: draft guidance for industry. Silver Spring: FDA; 2023.
- Husain M, Birkenfeld AL, Donsmark M, et al. Oral semaglutide and cardiovascular outcomes in patients with type 2 diabetes. N Engl J Med. 2019;381(9):841-851. doi: 10.1056/NEJMoa1901118.
- Lincoff AM, Brown-Frandsen K, Colhoun HM, et al. Semaglutide and cardiovascular outcomes in obesity without diabetes. N Engl J Med. 2023;389(24):2221-2232. doi: 10.1056/NEJMoa2307563.
- European Medicines Agency. Guideline on quality, non-clinical and clinical requirements for investigational advanced therapy medicinal products in clinical trials. EMA/CAT/22473/2025. Amsterdam: EMA; 2025.
- Frangoul H, Altshuler D, Cappellini MD, et al. CRISPR-Cas9 gene editing for sickle cell disease and β-thalassemia. N Engl J Med. 2021;384(3):252-260. doi: 10.1056/NEJMoa2031054.
- United States Food and Drug Administration. FDA approves first gene therapies to treat patients with sickle cell disease. Silver Spring: FDA; 2023.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada — RDC nº 945, de 29 de novembro de 2024: dispõe sobre as diretrizes e os procedimentos para a realização de ensaios clínicos no país visando à posterior concessão de registro de medicamentos. Brasília: Anvisa; 2024.
- World Health Organization Regional Office for Europe. Final report of the Oslo Medicines Initiative: improving access to novel, high-priced medicines in the WHO European Region. Copenhagen: WHO Regional Office for Europe; 2022.
Marcos Augusto França de Souza
Diretor e Fundador do IPEDSS
RCI – Revista Científica IPEDSS
Endereço correspondente:
contato@revistacientificaipedss.com
Edição DOI: https://doi.org/10.55703/276440060603
Artigos Publicados
Volume 6. Número 2. 2026
TERAPIAS BASEADAS EM PEPTÍDEOS NA MEDICINA MODERNA: APLICAÇÕES CLÍNICAS E DESAFIOS NA ESTABILIDADE E BIODISPONIBILIDADE – REVISÃO SISTEMÁTICA
Bruno Sander
E-mail correspondente: brunosander@hotmail.com
Data de publicação: 27 de Julho de 2026
10.55703/27644006060301
HIV EM CONTEXTO GLOBAL: IMPACTO DAS ESTRATÉGIAS DE PREVENÇÃO, TRATAMENTO E SAÚDE PÚBLICA NOS DESFECHOS CLÍNICOS E EPIDEMIOLÓGICOS – REVISÃO SISTEMÁTICA E METANÁLISE
Lismeia Raimundo Soares1, Jorge Casseb2
E-mail correspondente: lismeia@gmail.com
Data de publicação: 27 de Julho de 2026
10.55703/27644006060302
BIOMARCADORES INFLAMATÓRIOS E TRANSTORNOS DEPRESSIVOS: IMPLICAÇÕES DIAGNÓSTICAS E TERAPÊUTICAS – REVISÃO SISTEMÁTICA INTEGRATIVA
José Songlei da Silva Rocha1, Isabel Maria Estudante Guerreiro2, Lismeia Raimundo Soares3
E-mail correspondente: jrocha22a@gmail.com
Data de publicação: 27 de Julho de 2026
10.55703/27644006060303
NOVA ERA DO TRATAMENTO DA OBESIDADE: EFEITOS DOS AGONISTAS DO GLP-1, DUPLOS (GIP) E TRIPLOS (GLUCAGON) NO DIABETES MELLITUS, OBESIDADE E DEMAIS DESFECHOS SISTÊMICOS – REVISÃO INTEGRATIVA
Danilo Gustavo Gonçalves Ferreira Romanelli1, Ana Cristina Faria Silva Romanelli2
E-mail correspondente: daniloromanelli@yahoo.com.br
Data de publicação: 27 de Julho de 2026
10.55703/27644006060304
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